
"1 pipa de R$ 0,50, 5m de rabiola e 1 carretel".
Na primeira semana de férias escolares, há uns 10 anos atrás, subíamos a rua pra fazer a compra. Era de lei. Nada de pipas cor-de-rosa, a gente gostava de roxo, vermelho e amarelo.
E lá íamos pro "morrinho" tentar colocar o pipa no alto (o que muitas vezes era um garoto que acabava fazendo), pra perdê-lo (isto a gente fazia sozinha!) na antena do prédio em frente pouco tempo depois (demorou pra entendermos que na rua era bem mais prático - e arriscado, graças às linhas com cerol, pra empinar!).
Depois da janta, a gente brincava de polícia e ladrão. Alguém inventou que era mais difícil encontrar os ladrões (e mais fácil pra polícia se esconder) a noite. Vários muros pulados, calças rasgadas, vizinhos dos apartamentos térreos irritados e gente trapaceando (não podia ir pra rua... mas tinha uns babacas que pulavam o portão da garagem e ficavam zanzando lá fora!).
Futebol na rua de baixo. Rolês perigosos de bicicleta. Descer a avenida de patins e não conseguir frear pra entrar na rua de casa. Bolas de tênis lançadas em cima do prédio, por caras que não controlavam a força pra rebater, quando a gente estava jogando taco. Ioiô da Coca-Cola. Skate emprestado. Joelhos ralados. Peão e fieira.
E mais um bocado de coisas bacanas.
Usar Redley com cadarço era coisa de "caipira". E todo mundo queria ter, pelo menos um, Reef original (só ganhei o meu com 14 anos, quando já estava no 1º ano do Ensino Médio!).
Hoje tenho o desprazer de ouvir as crianças no quintal gritando:
- *pow*, *pow*, *pow*.
E uns reclamando com os outros:
- aí, fulano, você nunca morre, né?!
Nosso "polícia-e-ladrão" era bem mais interessante. Afinal, ninguém ficava dando tiro de "mentirinha", que ninguém vê e não dá pra saber se acertou ou não.
Assistindo TV à tarde, várias vezes sou surpreendida por um pipa batendo em minha janela da sala.
Ninguém ensina pra eles que não dá pra pôr pipa no alto aqui na frente do prédio. Tem que colocar na rua, jogar a lata de linha por cima do portão e ficar só empinando do quintal.
E no futebol deles, o goleiro usa luvas profissionais, os jogadores de linha usam camisas oficiais de times e tem até árbitro.
Não sabem rodar peão, nunca ouviram falar em "jogar taco", não andam de bicicleta, não "apertam a campainha e saem correndo", nunca viram ioiô.
Jogam Winning Eleven muito bem e na hora que está passando Pokémon na TV, não se ouve uma voz sequer.
A gente queria Reef de R$ 180,00 / R$ 250,00 (à época). Hoje, eles - a partir dos 8 ou 9 anos, brincam com celulares de R$ 600,00 / R$ 800,00 - tiram fotos desnecessárias e instalam trocentos joguinhos no pobre aparelho. Não é incomum vê-los sentados um ao lado do outro com fones nos ouvidos (cada um com o seu), ouvindo as músicas armazenadas no cartão de memória, que está no celular.
Felizmente, fui da geração anterior.
Esse pessoalzinho que teve a infelicidade de nascer entupido de tecnologia e quintais de cimento, não sabe brincar.
Hoje a gente vê homem barbado empinando pipa na rua, porque os garotos mais novos estão dentro de casa jogando vídeo-game ou fuçando no computador.
Foi-se o divertimento.
Ser criança hoje é muito sem graça!

