Foi depois de assistir "Vh1 Rock Honor - The Who" e ver Wayne Coyne, do The Flaming Lips (foto) entrando em cena dentro de um bolha, que fiquei pensando como deve ser maneiro estar "dentro" de uma.Lembrei-me também de Diego Hypólito que antes de sua participação nas Olímpiadas, em Pequim, ao referir-se à concentração para a competição soltou a frase - "estou vivendo na minha bolha".
E cheguei à conclusão [óbvia] de que muitos de nós vivemos em bolhas, não como as de Coyne, mas mais parecidas com a de Diego.
Em meus [saudosos] tempos de ensino médio eu "descobri" o discman - hoje, se perguntarmos a uma criança de 8 ou 9 anos se ela conhece "discman", pasme! Ela nem imagina o que é (comprovado!). Gravei um bocado de CDs do Bon Jovi e ouvia todos os dias, praticamente o tempo todo - indo pra escola, durante a aula, no intervalo, voltando pra casa (ahá! t'aí o motivo porque eu sei quase, se não, todas as músicas!).
Naquela época (até parece que faz tanto tempo assim!) em que mp3's de 512Mb custavam mais de R$100,00 (na Santa Ifigênia) e era difícil escolher 99 músicas pra colocar na aparelhin' (sim, eu demorava um tempão!), tive a felicidade de ganhar um. E desde então, fiz do mp3 "parte do meu corpo" - minha mãe me vê saindo de casa - pego a mochila, o bilhete único, esqueço o celular, boto o mp3 no bolso, os fones na orelha, ela diz: "Esse negocinho parece uma parte do teu corpo. Você não enjoa, não?". Não, eu não enjôo.
Meu pânico de ficar sem pilhas na rua é tão grande que tenho 6 (isso mesmo! 6!!) pilhas-reserva na mochila. E claro, várias vezes já me peguei pagando R$ 5,00 em pilhas Duracell em banca de jornal, farmácia, lojinha, só porque esqueci as recarregáveis em casa (eis o motivo porque não consigo trocar de aparelhin'... Os outros são a bateria e o fato de a bateria acabar e eu não poder trocá-la ou carregá-la na rua me apavora!).
Meus dias têm sido acompanhados por Seu Jorge, Ana Carolina e Paula Lima, com raras variações. Saio de casa de manhã já com a "trilha sonora" tocando, ao entrar na lotação, dependendo do motorista, tiro o fone de uma orelha para lhe dizer "bom dia" e ouvir a resposta (já que o som é tão alto que se eu não tirar tenho que fazer leitura labial). Coloco de novo. Só tiro na porta da sala de aula. Quando acaba a aula, já saio da sala com a orelha ocupada. Só tiro quando entro em casa.
Praticamente o tempo todo que estou sozinha, tenho meu fiel par de fones pra reproduzir um som agradável aos meus ouvidos. Que eu me lembre, não vou sem eles pra lugar algum. Não mesmo.
Decidi sair da bolha (sim, é uma espécie de bolha), pelo menos por um dia. Nem levei o aparelho na mochila pra não "cair em tentação". Deixei-o em casa. Sozinho e desolado.
Quando saí na rua, notei que é incrivelmente barulhenta pela manhã! Lotações que passam correndo, pessoas que conversam alto demais no ponto de ônibus, crianças que gritam com os pais quando estão indo pra escolinha e por aí vai.
E o barulho só piora. Na lotação que tomo pra ir pra facul tem um bocado de estudantes. E como falam! Eu hein... Cada assunto chato, que só ouvindo, ou melhor, nem queira ouvir. E as músicas que o motorista deixa tocando? Gosto da Beyoncè, mas ouvir seus gritos pela manhã não é nem um pouco agradável.
Enfim...
Na volta de novo: barulho de ônibus (já que tenho que voltar por um caminho mais movimentado), de caminhão, de buzina de carro, buzina de moto. Motorista que canta - "não diga que ele não vem...". Ou diz pra o passageiro que pede uma informação - "Eletropaulo? Cuidado com a Eletropaulo, viu? Ouvi dizer que tão dando choque em todo mundo. Mas se você ainda quiser ir lá, desce aqui, atravessa a faixinha quando o farol fechar - espera fechar, viu? que é logo ali. Mas cuidado com o choque!". E, não, o cidadão não tinha problema nenhum. Era uma pessoa comum, diria até "normal".
Mas sair da bolha tem lá suas vantagens. Ou desvantagens - ainda estou em dúvida. Por não estar com um "empecilho" à sua atenção, as pessoas conversam com você. Uma da sala de aula até o ponto de ônibus, outra na hora de descer do busão e mais um de um ponto até o portão de sua casa. Motoristas te cumprimentam e vão além do "bom dia". Vizinhos te vêem e puxam assunto.
Eu não sou uma pessoa sociável, ou melhor, costumo não ser. Prefiro "bolha", Jorge, Paula, Ana... Mas é bom interagir com o mundo "exterior". Ainda que seja barulhento, desgastante ou cheio de conversas chatas e formais.

